calçadão
um menino
uma fome
um vazio
:
uma bomba
prestes a ferir o silêncio da omissão
o derrame
de medo dos passantes
tingindo de vermelho
a brisa caída
e a violência
batendo na cara
das camadas de acomodação
calçadão
um menino
uma fome
um vazio
:
uma bomba
prestes a ferir o silêncio da omissão
o derrame
de medo dos passantes
tingindo de vermelho
a brisa caída
e a violência
batendo na cara
das camadas de acomodação
elos
essenciais
não são as rimas
nem a métrica
dos olhos
essenciais
são os elos
que tecidos à maneira de teia
juntam sentidos e sentimentos
e fazem beijar-se
os diferentes olhares
lembranças
uma manhã de nuvens
cheirando verão
as paredes prendendo
o silêncio do tempo
o relógio chorando
os minutos iguais
e a espera deitando
no prato de arroz
uma tarde chuvosa
beirando natal
o chão dormitando
na enchente do rio
um sino brincando
de sete marias
e a boca adoçando
geléia de jiló
uma noite pingando
dentro e fora do mito
o espelho frustrando
a esperança do rito
o lenço enxugando
dormentes de trem
o adeus respingando
promessas no vento
e o tempo partido
derivando pra vida
Desfecho
de tanto
embebedar-se
de sementes
regadas
em fio de navalha
o poeta
milagrou:
madurou frutos
onde a bela adormecida
planta bananeira
e flores de plástico
in picture
sobre a mesa
o passado amarrota o dia
à janela
olhar ensaia vôo cego
sons de saudosismo
desafinam o presente
silêncio cala a alma
:
o amanhã
vira pássaro de asas feridas
norte de minas
comendo chão
vai o pai
vai a mãe
vão os filhos
dentro deles
vai a foice
dilacerando o estômago
(enquanto me lambuzo
de chocolate e consternação)
constatação
quando deixa-se
de amar
não há como insistir
:tem que se colher
os espinhos
da despedida
e ainda
de alma dormente
de quimera despida
vazia
tem que se reconhecer
e se abraçar
depois
livre e lenta e nua
buscar o amanhecer
dos dias esquecidos
contando consigo
ecos do silêncio
solos de guitarra flamenca
morrem no ar
sementes regadas a rum
germinam no solo
do lado de cá do espelho
a bela adormecida
embebeda-se de sonhos
e dedilha alucinadamente
o fio da navalha
um quase bucolismo
laranjeiras
goiabeiras
mangueiras
e passarinhos
em onomatopéia outonal
frutas no chão
adubando vaidades
nos olhos compridos
do garoto
o catecismo:
a terra é de deus
em algaravia de zumbidos
a cerca vai desmentindo:
é
do
diabo
do
dono
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